Posts by megar

    Canção na plenitude


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    (Autor desconhecido)


    Não tenho mais os olhos de menina

    nem corpo adolescente, e a pele

    translúcida há muito se manchou.

    Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura

    agrandada pelos anos e o peso dos fardos

    bons ou ruins.

    (Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)


    O que te posso dar é mais que tudo

    o que perdi: dou-te os meus ganhos.

    A maturidade que consegue rir

    quando em outros tempos choraria,

    busca te agradar

    quando antigamente quereria

    apenas ser amada.

    Posso dar-te muito mais do que beleza

    e juventude agora: esses dourados anos

    me ensinaram a amar melhor, com mais paciência

    e não menos ardor, a entender-te

    se precisas, a aguardar-te quando vais,

    a dar-te regaço de amante e colo de amiga,

    e sobretudo força — que vem do aprendizado.

    Isso posso te dar: um mar antigo e confiável

    cujas marés — mesmo se fogem — retornam,

    cujas correntes ocultas não levam destroços

    mas o sonho interminável das sereias.


    Lya Luft - in "Secreta Mirada.

    O Palácio da Ventura

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    Sonho que sou um cavaleiro andante.

    Por desertos, por sóis, por noite escura,

    Paladino do amor, busco anelante

    O palácio encantado da Ventura!


    Mas já desmaio, exausto e vacilante,

    Quebrada a espada já, rota a armadura...

    E eis que súbito o avisto, fulgurante

    Na sua pompa e aérea formosura!


    Com grandes golpes bato à porta e brado:

    Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...

    Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!


    Abrem-se as portas d'ouro com fragor...

    Mas dentro encontro só, cheio de dor,

    Silêncio e escuridão - e nada mais!


    Antero de Quental, in "Sonetos"

    Soneto do amigo


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    Enfim, depois de tanto erro passado

    Tantas retaliações, tanto perigo

    Eis que ressurge noutro o velho amigo

    Nunca perdido, sempre reencontrado.


    É bom sentá-lo novamente ao lado

    Com olhos que contêm o olhar antigo

    Sempre comigo um pouco atribulado

    E como sempre singular comigo.


    Um bicho igual a mim, simples e humano

    Sabendo se mover e comover

    E a disfarçar com o meu próprio engano.


    O amigo: um ser que a vida não explica

    Que só se vai ao ver outro nascer

    E o espelho de minha alma multiplica...


    Vinícius de Moraes

    REGRESSO


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    Quando eu voltar,

    que se alongue sobre o mar,

    o meu canto ao Creador!

    Porque me deu, vida e amor,

    para voltar...


    Voltar...

    Ver de novo baloiçar

    a fronde magestosa das palmeiras

    que as derradeiras horas do dia,

    circundam de magia...


    Regressar...

    Poder de novo respirar,

    (oh!...minha terra!...)

    aquele odor escaldante

    que o humus vivificante

    do teu solo encerra!


    Embriagar

    uma vez mais o olhar,

    numa alegria selvagem,

    com o tom da tua paisagem,

    que o sol,

    a dardejar calor,

    transforma num inferno de cor...


    Não mais o pregão das varinas,

    nem o ar monotono, igual,

    do casario plano...

    Hei-de ver outra vez as casuarinas

    a debruar o oceano...


    Não mais o agitar fremente

    de uma cidade em convulsão...

    não mais esta visão,

    nem o crepitar mordente

    destes ruidos...


    Os meus sentidos

    anseiam pela paz das noites tropicais

    em que o ar parece mudo,

    e o silêncio envolve tudo


    Sede...Tenho sede dos crepusculos africanos,

    todos os dias iguais, e sempre belos,

    de tons quasi irreais...

    Saudade...Tenho saudade

    do horizonte sem barreiras...,

    das calemas traiçõeiras,

    das cheias alucinadas...


    Saudade das batucadas

    que eu nunca via

    mas pressentia

    em cada hora,

    soando pelos longes, noites fora!...


    Sim! Eu hei-de voltar,

    tenho de voltar,

    não há nada que mo impeça.

    Com que prazer

    hei-de esquecer

    toda esta luta insana...

    que em frente está a terra angolana,

    a prometer o mundo

    a quem regressa...


    Ah! quando eu voltar...

    Hão-de as acacias rubras,

    a sangrar

    numa verbena sem fim,

    florir só para mim!...

    E o sol esplendoroso e quente,

    o sol ardente,

    há-de gritar na apoteose do poente,

    o meu prazer sem lei...

    A minha alegria enorme de poder

    enfim dizer:

    Voltei!...


    Alda Lara

    Nasceu a 09 Junho 1930

    (Benguela, Angola)

    Morreu em 30 Janeiro 1962

    (Cambambe, Angola)

    Os versos que te fiz


    Deixa dizer-te os lindos versos raros

    Que a minha boca tem para te dizer!

    São talhados em mármore de Paros

    Cinzelados por mim para te oferecer


    Têm dolência de veludos caros,

    São como sedas pálidas a arder...

    Deixa dizer-te os lindos versos raros

    Que foram feitos pra te endoidecer!


    Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda.

    Que a boca da mulher é sempre linda

    Se dentro guarda um verso que não diz


    Amo-te tanto! E nunca te beijei...

    E nesse beijo, Amor, que eu não dei

    Guardo os versos mais lindos que te fiz!



    Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"


    ///X\\\


    Musica e arranjos de Manuel Aleixo
    Imagens- Manuel Aleixo




    Se Tu Viesses Ver-me...

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    Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

    A essa hora dos mágicos cansaços,

    Quando a noite de manso se avizinha,

    E me prendesses toda nos teus braços...


    Quando me lembra: esse sabor que tinha

    A tua boca... o eco dos teus passos...

    O teu riso de fonte... os teus abraços...

    Os teus beijos... a tua mão na minha...


    Se tu viesses quando, linda e louca,

    Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

    E é de seda vermelha e canta e ri


    E é como um cravo ao sol a minha boca...

    Quando os olhos se me cerram de desejo...

    E os meus braços se estendem para ti...


    Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"